Apresentação do dossiê
Educações, paisagens e artes em alianças multiespécies: contando estórias de um mundo em ruínas.
Marcos Allan da Silva Linhares; Keyme Gomes Lourenço; Tamiris Vaz
Em meados de 2024, convocamos narrativas com o intuito de desafiar a centralidade humana e as fronteiras rígidas do narrar. Nosso convite ecoou como chamado: que estórias desejariam falar de afetos inauditos, memórias que escapam aos arquivos convencionais e fluxos de vida que ultrapassam e são capturados?
Convocamos estórias, sim, porque queríamos ouvi-las vibrar entre as ruínas. Queríamos vê-las emergir, trazendo esperança e resistência diante das catástrofes e do desgaste cotidiano. O convite era uma abertura para que outras vozes viessem compor conosco uma polifonia generosa e desobediente.
Escolhemos cuidadosamente a palavra “estórias”, com “e” de escuta, encantamento e estranhamento. Inspirados por Anna Tsing (2022), não nos interessa um relato singular e linear do mundo, que se limita às grandes narrativas humanas. Preferimos narrativas que se movem subterraneamente, que sussurram das margens e brotam em frestas discretas, revelando outros modos de existir, outros modos de sentir, outros modos de ser e fazer mundos.
Se “história” com “h” deseja ordenar o caos, explicar o inexplicável e atribuir sentido às coisas, “estória” permite abraçar as ambiguidades e aceitar que nem tudo precisa ter um começo ou um fim definido. Estórias são passagens, são encontros, são atravessamentos que não prometem conclusão alguma, apenas o movimento contínuo, aberto à reinvenção.
Essas estórias resistem, insurgem-se contra a domesticação narrativa. Elas são múltiplas, fugidias e, às vezes, contraditórias. Carregam consigo vozes que não falam a língua humana, que narram através dos ventos, das chuvas, dos fungos que lentamente devoram e recriam mundos, das plantas que germinam nas fendas urbanas e dos animais que habitam sombras e luzes.
Ao entrarmos em contato com essa profusão de estórias, nos encantamos profundamente. Algumas nos arrancaram risadas e nos levaram ao devaneio; outras exigiram pausa e reflexão. Cada narrativa tornou-se um sopro de vida que interrompeu a pressa rotineira e nos transportou a lugares inesperados.
Estas estórias trazem em si um entrelaçar potente entre educações, paisagens e artes, costuradas em alianças com outros seres, mais-que-humanos. Aqui se narram as vidas dos rios, as memórias dos cheiros, a sabedoria dos sabores. São estórias ditas e sentidas pelo fogo, pelas águas, pelos fungos rizomáticos, pelo céu amplo e pelas nuvens efêmeras.
Caminhando lado a lado, encontramos estórias escolares permeadas por professores, estudantes e suas aprendizagens vegetais. Encontramos diálogos silenciosos, imagens que ressoam sons distantes e bichos que articulam culturas desconhecidas. Nelas, seres humanos e mais que humanos se encontram e se contaminam mutuamente, em cumplicidade vital.
Cada narrativa nos oferece o que Anna Tsing (2022) denomina “diversidade contaminada”, aquilo que persiste, floresce e insiste diante das violências, ganâncias e destruições perpetradas pelas grandes histórias do progresso humano. Elas exigem que escutemos com atenção renovada e que pratiquemos a arte de notar.
Essas estórias são práticas políticas e éticas. Recusam qualquer simplificação, optando pela fertilidade das contradições e das multiplicidades. Elas convocam, convidam, desafiam a acolher outras lógicas narrativas, outros modos de conhecer e de fazer mundo.
Em meio as leituras, percebemos ainda mais que o ato de narrar é, ele mesmo, multiespécie. É uma prática de escuta ampla e acolhimento sensível, onde as fronteiras entre humanos e mais que humanos se dissolvem, surgindo paisagens nas quais somos todos coautores e cocriadores.
Não buscamos conclusões, mas sim aberturas constantes, espaços para novos encontros e alianças inesperadas. Cada palavra-ato aqui registrado é um convite aberto, uma provocação, uma ponte para outras tantas narrativas que continuam a emergir nas frestas das ruínas.
São estórias breves, estórias longas, desejos, promessas cumpridas, outras a se fazer, são poesias, imagens, cartas escritas em guardanapos e pedaços soltos de papel, retalhos de vida que se unem com a vontade de dizer algo, de soltar ao vento as palavras ainda não ditas. São revoltas narrativas, pequenas insurgências cotidianas que nos provocam a repensar o que significa existir junto e COM os outros seres.
São as narrativas capazes de recriar mundos com palavras, movimentos, perguntas, gestos, silêncios e possibilidades? Este dossiê é um convite contínuo para que sigamos narrando juntos territórios que ainda sequer conseguimos imaginar.
Referências Bibliográficas
TSING, Anna. O cogumelo no fim do mundo. Tradução: Jorge Menna Barreto. São Paulo: N-1 Edições, 2022.