Exaustão e revolta: a contemporaneidade tem sido esquizo-camusiana?
Exaustão e revolta: a contemporaneidade tem sido esquizo-camusiana?
Carlos Isaac Batista do Nascimento
Resumo
Há um objetivo: para além de anunciar o “sofrimento psíquico” como instância da política, incitá-lo como fruto da ausência da possibilidade de revoltar-se, da inútil certeza da inutilidade da revolta, que caracteriza nosso tempo. Para isso, inicia-se com uma leitura de Camus como fundamentalmente crítico da sociedade do trabalho, contexto de aparição do que denominou como “absurdo”. Assim, a intercessão com o pensamento de Foucault sobre a modernidade se faz oportuno ao historicizar o devir de tal organização social e suas tecnologias de governo para sufocamento das revoltas. A partir disso, a noção de “sociedade de controle” de Deleuze permite o adensamento ao modo de produção de desejo e colonização do imaginário. Bifo Berardi, David Le Breton e Mark Fisher nos auxiliam a atualizar o funcionamento da produção desejante no século XXI, marcado pela anestesia viciante e letárgica que conduz a um estado de exaustão anedônico e hedônico; o absurdo contemporâneo. Para Camus, revolta é saída diante do absurdo; no entanto, talvez também possamos pensar o absurdo como ferramenta de aniquilação da revolta.
Palavras-chave: Exaustão. contemporaneidade. revolta.
Exhaustion and revolt: has contemporary times been schizo-camusian?
Abstract
There is a goal: beyond announcing "psychic suffering" as an instance of politics, to incite it as a result of the absence of the possibility of revolt, of the futile certainty of the futility of revolt, which characterizes our time. To this end, we begin with a reading of Camus as fundamentally critical of the labor society, the context of the emergence of what he called the "absurd." Thus, the intercession with Foucault's thought on modernity becomes suitable in historicizing the becoming of such a social organization and its technologies of government for suppression of revolts. From this, Deleuze's notion of a "society of control" allows for a deeper understanding of the mode of production of desire and colonization of the post-disciplinary society imaginary. Bifo Berardi, David Le Breton, and Mark Fisher help us update the functioning of desiring production in the 21st century, marked by the addictive and lethargic anesthesia that leads to a state of anhedonic and hedonic exhaustion—the contemporary absurd. For Camus, revolt is the way out of the absurd; however, perhaps we can also think of the absurd as a tool for the annihilation of revolt.
Keywords: Exhaustion. Contemporaneity. revolt.
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