A Linguagem na Mesa de Autópsia – por uma Vagabundagem do Sentido
A Linguagem na Mesa de Autópsia – por uma Vagabundagem do Sentido
Michelle Martins
Resumo
A partir da noção de Corpo sem Órgãos – formulada por Artaud como insurreição contra a organização funcional do organismo e abertura à proliferação de forças –, este ensaio propõe pensar a linguagem como campo intensivo de errância e criação. Inspirado na transmissão Para acabar com o juízo de Deus, em que o corpo é levado à mesa de autópsia para ser refeito, explora-se o sentido como devir, sempre em fuga, em dissolução e recomposição contínua. A linguagem é dissecada como corpo mutante: sujeita a desvios, contaminações e coagulações. Dialogando com Deleuze, Guattari, Artaud e Paul Preciado, a escrita emerge como prática de subversão das normatividades do corpo, da linguagem e do discurso. O conceito de “vagabundagem do sentido” opera como linha de fuga que rompe os regimes de signos dominantes, instaurando uma política do indizível. A linguagem, nesse campo de forças, deixa de significar para passar a compor: máquina de guerra, prática de resistência, campo de batalha em que identidade e sentido não são dados, mas sempre provisórios, móveis, incapturáveis.
Palavras-chave: Corpo sem Órgãos. Desterritorialização. Vagabundagem do sentido.
Language on the autopsy table – towards a vagabondage of meaning
Abstract
Drawing from the notion of the Body without Organs—originally formulated by Artaud as an insurrection against the functional organization of the organism and an opening to the proliferation of forces—this essay proposes to think of language as an intensive field of errancy and creation. Inspired by the transmission To Have Done with the Judgment of God, in which the body is brought to the autopsy table to be remade, this text explores meaning as becoming: always in flight, always dissolving and recomposing. Language is dissected as a mutating body, subject to deviations, contaminations, and coagulations. In dialogue with Deleuze, Guattari, Artaud, and Paul B. Preciado, writing emerges as a practice of subverting the normative structures of the body, language, and discourse. The concept of a “vagabondage of meaning” operates as a line of flight that breaks through dominant regimes of signs, inaugurating a politics of the unsayable. Within this field of forces, language ceases to signify in order to compose: a war machine, a practice of resistance, a battlefield where identity and meaning are not given, but always provisional, mobile, and uncapturable.
Keywords: Body without Organs. Deterritorialization. Vagabondage of meaning.
Texto Completo
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