Dossiê variações deleuzianas: Um convite a instauração de outros modos de pensar e existir
(Revista Alegrar, n. 36, dezembro de 2025)
Entre 5 e 7 de novembro de 2024, o V Colóquio Variações Deleuzianas reuniu, em formato online, pesquisadoras e pesquisadores que orbitam em torno de uma questão que atravessa e desafia nosso tempo: como resistir aos modos de controle e às formas de subjetivação que se impõem sobre a vida? Organizado pelo Grupo Conversações e Maiêutica, da Faculdade de Filosofia da UFPA, e com o tema Sociedade de Controle, Produção de Subjetivação e Resistência, o encontro foi uma convocação ao pensamento, um chamado a escutar as potências menores, os devires, as linhas que escapam.
Inspirados pelo texto “Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle”, de Gilles Deleuze, o colóquio propôs pensar as mutações do capitalismo e suas atualizações tecnológicas, que dissolvem as antigas formas de confinamento e instauram novas modalidades de captura. As redes digitais, os dispositivos de vigilância e os regimes de informação tornaram-se zonas de modulação da existência: nelas, corpos e consciências são continuamente fabricados, divididos, monetizados. A sociedade contemporânea parece mover-se entre algoritmos e fluxos, enquanto as subjetividades se dispersam em dados, em rastros, em perfis que se multiplicam e se fragmentam.
É nesse contexto que a filosofia, a arte e a ciência se reinventam entre gestos éticos e políticos. Pensar, aqui, não é apenas refletir, mas produzir variações, criar espaços de resistência onde a vida possa afirmar-se em meio à captura. O dossiê que compõe esta edição da Revista Alegrar nasce desse movimento coletivo de pensamento: dez textos que emergem como experiências de criação, cada qual atravessada por uma urgência, uma imagem, um sopro de resistência.
No artigo “A linguagem na mesa de autópsia – por uma vagabundagem do sentido”, Michelle Martins abre o dossiê propondo uma escrita que se revolta contra a organização funcional da linguagem. Em diálogo com Artaud, Deleuze, Guattari e Paul Preciado, a autora inscreve o corpo da linguagem na mesa de autópsia para que dele brotem novas intensidades — palavras errantes, sentidos que não cessam de se refazer.
Em “Aos sussurros: por um pensamento em vias de se dizer – e suas implicações clínicas”, Marta Picchioni e Avessa Garcia exploram o limiar entre o pensar e o dizer, evocando o pensamento em estado germinal, aquele que ainda tateia o indizível. O texto se move entre filosofia e clínica, convidando-nos a escutar os murmúrios do pensamento que nasce, quase inaudível, entre um mundo e outro.
A tríade amazonense composta por Guilherme Araújo Soares, Ícaro Feitosa Dolzane e Maria Ione Feitosa Dolzane apresenta “Artistagem docente e acontecimento: nomadismos e devir-criador na educação matemática menor”. Aqui, a educação é tomada como espaço de criação viva, onde o professor se torna artista e nômade, inventando modos de ensinar que escapam à lógica majoritária. A artistagem, como dizem os autores, é o próprio gesto de resistência: uma pedagogia menor que se faz no entre, nas brechas, nas dobras do instituído.
Em “Exaustão e revolta: a contemporaneidade tem sido esquizo-camusiana?”, Carlos Isaac Batista do Nascimento estabelece um diálogo tenso entre Camus, Foucault, Deleuze e autores contemporâneos como Bifo Berardi e Mark Fisher. Sua reflexão aponta para um tempo em que o absurdo não mais convoca à revolta, mas tende a neutralizá-la. Ainda assim, o texto reabre a pergunta: como resistir quando até a revolta parece capturada?
“Experiências coletivas no ensino médio: projeto de vida e afetos criativos”, de Regis Lopes Silva, Leda Mendes Pinheiro Gimbo e Domenico Uhng Hur, desloca a discussão para o campo da educação básica, investigando os projetos de vida dos adolescentes e suas potências criativas. O texto revela que o projeto de vida pode tanto ser vetor de controle — ao impor trajetórias normalizadoras — quanto um espaço de invenção, em que laços de amizade e afetos coletivos abrem frestas para o porvir.
A contribuição de Thaynan de Oliveira Soares Rodrigues, “Fabulação e cinema para a resistência e invenção de um outro aprendizado”, mergulha no cinema como espaço de pensamento. Inspirada na filosofia de Deleuze, a autora busca nos filmes modernos e de Terceiro Mundo não apenas imagens, mas forças de aprendizagem que escapam à lógica do ensino planejado. O cinema torna-se, assim, território de fabulação e resistência — uma escola sem muros, feita de luz e movimento.
Em “Fogo-nômade abrindo caminhos de resistências e (re)invenções em meio ao Piroceno”, Marcos Allan da Silva Linhares, Keyme Gomes Lourenço e Lucas Rodrigues Silva refletem sobre a convivência com o fogo como metáfora de nossa era. Entre destruição e criação, o fogo se faz força de pensamento e de vida, chamando-nos a coexistir com o imprevisível. O texto arde: é uma filosofia incendiária que propõe alianças com o fogo para reinventar práticas pedagógicas e modos de existir.
“Caderno novo”, de Lívia Sgarbosa e Carolina Rodrigues de Souza, traz a delicadeza do gesto formativo de mulheres estudantes que, ao abrirem um caderno em branco, reescrevem a própria história. Inspiradas na cartografia e em perspectivas feministas, as autoras nos convidam a pensar o caderno como território de invenção — uma superfície viva onde o aprender se confunde com o existir.
Rosanna Maria Araújo Andrade-Silva, em “O princípio da aprendizagem ao longo da vida interpretado a partir do conceito de sociedades de controle”, tensiona o discurso neoliberal da formação contínua. Ao aproximar o “life long learning” das lógicas de controle, a autora mostra como a promessa de autonomia e aperfeiçoamento permanente pode se converter em captura e vigilância. A educação, nesse campo, é ao mesmo tempo espaço de risco e de resistência.
Encerrando o dossiê, “Reinvenções de si: sobre os modos de existência da menina que sonha”, de Eduardo Pereira Batista e Lívia Sgarbosa, apresenta o devir de uma mulher negra que, ao se re-voltar, inventa novos modos de existência. A narrativa é uma cartografia da reexistência — uma vida que, ao estudar, sonhar e afirmar-se, desestabiliza as imagens coloniais e reinscreve-se no mundo.
O conjunto desses textos não busca uma unidade, mas um campo de forças. Cada artigo é uma dobra que ressoa com os outros, compondo uma multiplicidade: linguagem, pensamento, docência, cinema, corpo, fogo, afeto, resistência, sonho. O dossiê é, portanto, um gesto coletivo — um modo de pensar com Deleuze, mas também para além dele, abrindo variações que atravessam a filosofia e a educação.
Se a sociedade de controle produz subjetividades contínuas e exauridas, este dossiê afirma a potência do encontro, do pensamento menor, da fabulação e da criação. Pensar, escrever, resistir — eis o convite que se renova a cada página.
Os organizadores do Dossiê:
Mirele Corrêa
Maria dos Remédios de Brito
Marcus Novaes